sexta-feira, 12 de junho de 2009
Fechar os olhos para apreciar a melodia direito. Senti-la crescer aqui dentro. Ouvir cada nota acreditando que a sua mão está ao lado da minha, em cima do meu coração. Bate e machuca. Ouvir a música sozinha sempre foi mais triste.
E começa tudo outra vez, quando você acha que tudo está terminado, volta o refrão, avisando que ainda tem muita coisa para acontecer. É o refrão que eu mais temo. Ele chega, em um primeiro momento, mostrando o melhor da música, depois vai embora. E quando volta faz lembrar que ele é passageiro.
Não quero entrar neste vagão só para uma viagem rápida. Quero conhecer a Europa inteira. Ir para Indaiatuba eu vou todos finais de semana, e é bem rápido. Quero passar semanas inteiras conhecendo Paris. Sábados e Domingos vendo de perto o Louvre. Mas isto, só é possível se você me deixar conhecer a sua Europa. Deixar-me descobrir qual a música que você ouve em um sábado à noite, para ouvirmos juntos.
Toc, Toc. Posso entrar? Talvez hoje eu descubra a melodia do seu coração. Talvez hoje eu toque ela para nós dois ouvirmos antes de dormir.
terça-feira, 10 de fevereiro de 2009
A constância.
Quando os pais assinaram o contrato, tudo ficou bem evidente para as meninas, iríamos morar juntas! Considerando que éramos provenientes de lares com hábitos completamente diferentes, nos deparamos com um sério problema: a liberdade desorientada. A anarquia foi estabelecida como sistema social, ninguém mandava, mas também ninguém era culpado. Funciona muito bem quando não existe nenhum problema.
O nosso primeiro caso de estudo foi a pia da cozinha. Um contato direto com os outros seres estranhos da casa por meio do acumulo continuo de louça. A princípio, criou-se certas regras, como “este lado é meu, o resto vocês que se virem”. Mas com o tempo, caminhamos à desordem e ninguém mais sabia onde terminava a louça de quem.
Em seguida, a pia resolveu se revoltar. Considerando que o apartamento estava velho e a pia exausta, descobrimos que ela havia criado uma habilidade “sobrepia”: o metal que a formava suava e tínhamos uma goteira abstrata. Depois de alguns meses, retirando bacias cheias debaixo da revoltada, decidimos consertar a situação e colocar o mínimo de ordem naquele lugar.
Porém, o absurdo não terminava ai. Havia também, a privada que cantava, a porta do banheiro que não fechava, a maquina de lavar roupas que enguiçava e o fogão com uma chama que exigia uma paciência de Jó. Era o tipo de casa que qualquer um adoraria viver.
Como não existiam regras, o sistema criou uma para nós. Era um ode a Entropia, com direito a coros em grego para todos ouvirem. A grandeza que mede o grau de desordem de um sistema estava nos nocauteando. Éramos resistentes residentes do caos. Aos poucos conseguimos enfraquecer a incansável vilã. A casa passou a ter certa ordem. Não exatamente em cima da pia da cozinha, mas o suficiente para harmonizar o lar.
O mais estranho no conceito da Entropia é que o equilíbrio universal é classificado como caos. Quando dizem que tudo segue rumo ao caos é porque, entropicamente falando, o universo tente a se equilibrar. E este conceito atingia não somente a parte física da casa, como também as três garotas psicologicamente.
Três figuras completamente diferentes, de repente estavam falando a mesma língua, descobrindo-se uma nas outras e criando um jeito simples e único que juntava um pouquinho de cada uma. Existia alguma coisa que entrelaçava uma idéia na outra, e quando chegava o final de semana, o que você mais queria era se divertir com quem você já se comunica por olhares.
Diferente de irmãos, não crescemos juntas, amadurecemos juntas. Quando o universo gritou “Chegou à hora de colocar um pouco de vergonha nesta sua cara, queridinha” existiam pessoas completamente estranhas morando na sua casa, o que tornava tudo mais complicado. A obrigação falava mais alto e quem era forte resistia a qualquer tentação de ter a mordomia de antes.
A anarquia foi destituída como sistema social. Ninguém mais estava feliz com esta liberdade, exigíamos um avanço neste universo. Foi proclamado um líder para apaziguar qualquer tipo de desentendimento, ele compreendia qualquer parte, para ele ninguém estava certo e todos também estavam certos.
Só fomos tomar conhecimento dele quando uma das integrantes precisava de ajuda. Havia algo além da solidariedade que as fazia deslocar-se para o hospital mais próximo, ou então preocuparem-se quando alguém soltava um berro inesperado na casa. Acima de qualquer momento insano das baladas fora criado um laço que ficou carimbado na formação de nossas identidades.
Era como ser parte de um corpo real, tudo junto, mesmo não sendo um só membro. Havíamos atingido um nível de consentimento que não era nem mais necessário manifestações sempre teríamos a certeza de quando uma riria.
domingo, 11 de janeiro de 2009
Entre olhares e risos.
Sem jeito, ele perguntou para ela como era morar na cidade grande. Ela respondeu com o brilho das estrelas refletido nos olhos. É como se viver no céu e no inferno, dia e noite. As sobrancelhas franzidas demonstravam curiosidade. Ela sorriu e explicou. A cada passo que você dá, em um uma simples caminhada na Paulista, por exemplo, você se surpreende e pode se apaixonar ou odiar o que encontra. São mendigos em estado lastimável no chão da rua em frente a uma maravilhosa livraria transbordando cultura. É como se os opostos se unissem para formar parte de um só lugar.
É a ironia de ser parte da mesma moeda, que faz com que eles fiquem lado a lado. Ele disse e olhou profundamente nos olhos dela. Ela esperou por uma atitude dele. Quando ele olhou para frente ela decidiu perguntar. E como é viver no interior? Ele abriu um sorriso e olhou para o chão, indeciso, reconsiderou e decidiu extravasar o sentimento. É sentir o cheiro da chuva na terra, os grilos e sapos durante a noite, apreciar uma intimidade constante com o resto da cidade e admirar as estrelas a noite. Quando terminou ele olhava para o céu de maneira muito profunda e relatou. Quando eu era um garoto, minha mãe me levou para passar uns tempos na casa da minha avó em São Paulo, eu fiquei a noite inteira lamentando que não tinha estrelas no céu, eu achava que um monstro gigante tinha comido todas elas da cidade, eu fiquei com medo que ele fosse me atacar. Terminou o relado com uma gostosa risada que foi imediatamente acompanhada.
Quando o riso terminou, ela colocou a mão no rosto dele. Queria que a água da sua boca se juntasse com a dele. Ela praticamente implorava. Me beija. Ele pegou na mão do rosto dela e a retirou, sem em nenhum momento perder a maior ligação que eles tinham. O olhar. Quando ela ia começar a desviar ele avançou nos lábios dela.
Perceber que seu braço estava tremendo a fazia sentir como uma menina. Havia algo tão lindo entre eles que ultrapassava os instintos e o puro desejo físico. Era a consciência de que aquilo era perfeito e podia ser muito mais do que um futuro relacionamento. Era a incerteza da dimensão que aquilo tomaria na vida dos dois e a certeza de que, momentos como este te acompanha por uma vida inteira. Só queriam sentir o prazer do encanto que os unia.
segunda-feira, 22 de dezembro de 2008
Tatuagens.
Minha própria casa já virou um centro de tatuagens. As pessoas que moram comigo têm tatuagem. Porque diabos essa relutância insistia em mim? Não podia simplesmente seguir o meio e ser aceita como mais uma dentro do padrão? Não, existe algo aqui dentro que considera horroroso a inserção de tal elemento cheio de tinta no corpo!
Assusta-me o fato de pensar que irão passar a vida inteira com aquilo. Eu não conseguiria, no primeiro mês sairia correndo para tirar. Iria enjoar daquele negocio preso ali. Imagino-me com uma linda fadinha no pé. Depois de algum tempo que a bonitinha já tivesse se acostumado com a moradia em um pé magrelo, eu gritaria até a exaustão obrigando-a a sair de lá. Quem ela pensa que é, gritaria eu, insanamente, chacoalhando meu pé.
Meu corpo é o meu templo. Momento filosofia budista. Meu templo não tem letrinhas japonesas, eu não sei japonês. Não tem desenhinhos em dégradé e muito menos em gradiente. Só sei fazer isto no photoshop pra depois colocar no fundo de tela e ir correndo dizer, foi eu quem fez manhê. Orgulhosa ela me abraçaria e ambas usaríamos o computador mais alegremente.
Meu corpo tem dedos, unhas e sujeira, quando eu ando descalça no chão. Está cheio de cicatrizes, adoro contemplá-las. Sinto um êxtase ao ver que minhas tatuagens são as marcas da vida. Que emoção, minha necessidade com marcas é produzir sempre mais uma que seja muito dolorida. Como o ser humano é masoquista!Ou serei somente eu? Mas quem faz tatuagem também se machuca... Acho que as marcas coincidem com a insanidade de viver. Talvez um dia eu goste até das rugas e ao caminhar toda pelancuda, com os seios no umbigo, o rosto cheio de mancha, eu pense “Ser velho é ter muitas tatuagens”.
terça-feira, 16 de dezembro de 2008
A cena se repete.
Havia faróis, pessoas rindo, casais sorridentes e ela distraidamente contemplativa em plena Avenida Paulista. Na cabeça, ela se lembrava de tudo o que apreciara ao longo do dia. As músicas do Teatro Abril e também, as emoções vividas e admiradas em uma peça cujo objetivo era despertar o desejo de querer o outro. E o que ela queria naquele momento?
Estava tão serena, nada podia atrapalhá-la. Para qualquer lado que olhasse estava tudo se encaixando, indo para os seus devidos lugares. Os problemas estavam aos pouquinhos sumindo, e ela podia, agora, novamente voltar a admirar tudo o que acontecia, como em um filme, no qual ela era a diretora e assistia tudo de longe, contemplativa.
Mas ali, na parte debaixo da rua algo a chamou a atenção. Eram duas pessoas caminhando lada a lado de mãos dadas. Ele olhava para frente, como quem estava gostando de tudo o que acontecia, o clima o agradava a companhia também, e ela, a acompanhante sorria de uma maneira genuína que ela fazia questão de esconder dele. Era uma felicidade que era só dela, talvez a timidez a impedisse de compartilhar com ele.
Em uma piscada de olho ela viu tudo aquilo naquele casal. Somente mais um parzinho a caminhar e tentando se conhecer. Seria somente isto se aquilo não representasse um susto. O susto. A paralisia tomou conta do corpo dela, atravessar a rua de repente ficou muito mais complicado do que era. Ela tinha perdido o foco.
Aquela sensação a lembra de outra situação de choque, na qual ela se viu enganada. A imagem grudava na mente, de tal maneira, que se torna impossível deixar ela ir embora. A cena continua a se repetir e repetir até você decidir que é hora de acordar.
O choque permaneceu, a euforia a dominou e ela ria descontroladamente ao lembrar-se do garoto que estava começando a fazer parte da sua vida com outra. Triste fim para um início que nem início teve. Veloz e automático, ligou-se o botão do off. Mais um caso, infelizmente encerrado.
O sentimento puro e sincero que surgiu, caia como pétalas que sabiam que seu tempo de vida havia terminado. O chão estava cheio delas. Com a flor ainda viva, a garota aproveitou o momento e decidiu que era melhor soprar tudo aquilo. Que o vento se encarregasse das decisões futuras. Surgindo, talvez, com uma ventania de pétalas, inesperadas, no futuro.
quarta-feira, 10 de dezembro de 2008
As cinzas que eu tentei soprar.
Sinto a dor, que todos falam, aparecer das cinzas que eu tentei soprar. Como uma enorme fênix que tentou morrer, mas não conseguiu desaparecer do meu corpo. Estou mais presa a isto do que eu imaginava, não adiantou fugir, como poderia eu fugir de mim mesma sendo que o que me motiva a viver é ser amada e amar a minha vida dolorosamente.
Cansei, desisti, isto é maior que eu. E o mais frustrante é saber que ele não tem culpa de nada. Que fui eu, sozinha, que fiz isto tudo, eu e a minha maneira iludida de acreditar no amor. Romantizei a historia que existia e vi no menino o amor, e em mim mesma a chama crescente da paixão sem reciprocidade. É desesperador saber que estou sozinha neste barco que era para ser a dois, é triste lembrar que a fusão que eu mais quero ter não é possível pelo simples motivo que amar é sofrer muito quando não se é amado em retorno.
Deixei-me levar no inicio e parti insegura em busca do meu sonho, porém como nada é fácil e para tudo se deve lutar, eu consegui da maneira mais ignorante receber a única resposta que eu mais temia e desejava desesperadamente para não ser verdade. A minha vaidade foi grande demais para poder acreditar nela e a minha auto-estima baixa demais para crer que eu podia conquistar quem eu tanto queria.
Diante da amargura que eu me encontrei descobri a escuridão. Eu não consegui me levantar, meu trauma foi levado para o inconsciente, e achando que eu estava fazendo a coisa certa eu fechei os olhos e o que me restou foi a esperança de que algum dia alguém os abrissem novamente, mas o meu maior desejo era de que este alguém fosse quem eu tanto, ainda, amo.
Entre lagrimas admito que o meu coração não pode mais ficar acorrentado, terei de soltar este cadeado aos poucos e liberta-lo para que ele consiga livremente admitir para a verdade diante de quem precisa ouvir. Eu devo esta ultima chance a mim mesma, eu preciso tentar novamente e lembrar que a minha versão que ele conhece mudou.
segunda-feira, 1 de dezembro de 2008
Seis passos de uma briga.
ela dá o início a tudo.
Em um movimento nacísico,
ele se atinge e fica mudo.
Ele ataca com um dado
Nos deparamos com um dois.
Eu insisto!
Mais uma vez jogado,
Quero ser dona da trapaça.
Seria agora o numero três?
Os dentes começam a aparecer.
A resposta vem sempre imediata.
Partimos para o quarto, é quatro.
Já tinha passado o tesão,
meu momento era afobação.
Ele enlouquecia com a minha língua ferina.
No cinco, já estávamos nos quintos
Ele respondia a altura e me queimava
Meu desejo era ser o diabo,
Deixar ele preso no inferno das minhas palavras.
Em uma ultima jogada,
Ele muda a marca no dado.
Saímos flagelados, esgotados.
E aceitamos, doloridos, o que perdemos.