sexta-feira, 22 de outubro de 2010

O fruto da nogueira

Ata-me
Desenlaça a vontade
Aprisiona em nós
Cego
Noz

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

O pronome da amizade

O filme havia acabado. As garotas ficaram na penumbra dos créditos finais, deixando o letreiro passar em silêncio até assimilarem o que haviam visto. Uma delas puxou o cobertor mais pra cima, a do lado se ajeitou melhor no travesseiro, outra tentou se posicionar melhor na cama de casal e a ultima suspirou.

Formavam um daqueles grupinhos de amigas que estavam juntas fazia anos. Quanto mais próximas, mais passavam por momentos parecidos. Uma começava a namorar e em pouco tempo lá iniciavam as outras também. Uma terminava e, não tinha outra, se o relacionamento estivesse mal das pernas, tudo parava de andar. Até mesmo menstruavam na mesma época, mas isto não era porque os laços eram muito fortes e ultrapassavam até as barreiras biologias na fusão, era, somente, pela convivência mesmo. O corpo feminino compreende algumas coisas que não é possível explicar cientificamente e estes vínculos invisíveis nem elas entendiam como haviam sido atados.

Foram os nós dos anos que teceram os fios deste sentimento. As quatro conjugavam cada vez mais aquela ligação, estreitando vidas com as emoções e aprofundando no conhecimento de si mesmas e de ser humana.

Era encantador observar como se entendiam tão bem e seguiam por caminhos opostos. Quando mais jovens, tinham o universo cheio de portas abertas, mas conforme decidiam os passos, caminhavam por estradas diferentes e os problemas curriculares saiam da pauta dos encontros. Nenhuma falava a mesma língua na faculdade, mas apresentavam o mesmo sotaque. Aprenderam desde pequenininhas a linguagem carinhosa dos nós. Era um nós nos amamos, nós nos queremos bem, nós nos ajudamos, nós falamos a verdade quando precisa, nós. Ao ligar uma para outra, observava-se como sentiam os nós.

E aquele era um momento delas, quando podiam falar livremente e aproveitar o final de semana para colocar o papo em dia. Quanto mais falavam, mais tinham coisas para falar. Contaram dos amores, das desilusões, dos sonhos e expectativas, mas nunca deixavam de lidar com maturidade com as situações mais complicadas que poderiam, como em um tropeço vocálico, torná-las em somente eu.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Presa Humana

Eu esperei até mais tarde, quando vi que a lua já sobrepunha o dia e sai. Não queria que ninguém visse o que eu estava prestes a fazer. Abri o calabouço da casa e cuidadosamente desci as escadas. Eu estava tensa e minhas mãos apertavam-se continuamente emanando um suor frio desesperador. O ranger dos degraus não me assustava tanto assim, temia muito mais pelo o que eu ia encontrar ali embaixo, deitado no chão. Respirei pausadamente, se eu não me acalmasse não iria conseguir cumprir a minha obrigação.

Eu podia sentir o cheiro do sangue velho e já seco. Meu estômago revirava enojada com as lembranças, estava quase vomitando. Engoli a vontade de ruminar, aquilo era mais importante do que um mal estar qualquer. Raciocine, não se altere, não deixe as emoções dominar. E como se eu ligasse um botão meu momento estóico havia se iniciado.

Pisei no chão sujo, com os vestígios de uma luta sangrenta. Não estava me importando muito com os meus sapatos, em breve tudo estaria limpo e em seus devidos lugares. Meu impulso organizador me direcionou ao morto que jazia ali na penumbra. Olhei naquela face serena e me lembrei de como foi difícil arrancar os seus caninos com o alicate do meu pai.

Ele ainda estava acordado e amarrado em uma cama e se mexia loucamente. Quando viu meu sorriso aquele dia ele achava que ia ganhar mais uma noite de prazer, muito sexo e pouca conversa. Muito gozo e nenhuma cumplicidade. Mostrei a corda com uma cara safada, o amarrei a cama e ele agonizava de ansiedade. Com um simples rebolado em seu membro ele gemeu e fechou os olhos me dando abertura para amarrar um laço firmemente na boca. Os caninos ficaram a mostra.

Enfiei o instrumento na boca dele e com o alicate pressionava o dente para os lados, era complicado com ele se mexendo loucamente. Obstinada, insisti, o sangue escorrendo me dava com mais vontade de aproveitar o momento sádico. Arranquei os dois dentes que ele mais prezava sem nenhuma anestesia. Ele urrou de dor. Para meu deleite ele implorou que eu parasse, estava louco para fugir. Gargalhei e procurei outros instrumentos que me fizessem aproveitar mais ainda o momento sereno.

Encontrei um machado, a serra e chave-inglesa. Preferi os alfinetes e a faca de cozinha que quase não tinha corte. A pele dele era difícil se triturar, se a carne fosse mais macia não teria me dado tanto problema. Quando ele já estava cheio de ferimentos nos braços e pernas, avancei para a região do joelho e cortei qualquer possibilidade de ele se manter em pé novamente. A perna continuava ali, mas, um pouco inútil agora. Enrolei-o no lençol e, todo amarrado, o levei para o calabouço ainda vivo.

Isto já fazia uns três dias, decidi descer e observar o morto-vivo que antes sugava o que me era vital. O desejo sádico havia ido embora, restava à realidade o peso de um passado mórbido. Nunca devia ter me envolvido com um vampiro, nunca devia ter deixado aquilo se tornar parte da minha vida e dominar minha emoções completamente. A pessoa sempre equilibrada tinha se tornado completamente passional, amando intensamente, feito o diabo. Eu havia me entregado até finalmente abrir os olhos e ver que era fonte de alimento para a sua sobrevivência.
Mas ao olhá-lo como um resto de corpo estendido no chão. Encontrei em sua face o espelho que eu temia. O criador se encontrava na criatura. Eu poderia ser tudo, menos igual aquela coisa! Senti-me nojenta e via meu corpo igual ao dele, completamente mutilado no chão. Minhas mãos eram sujas e minhas pernas não me sustentavam mais. Olhava para o teto desesperada! Meus dentes haviam sido arrancados. Os meus dois caninos pairavam na poça ao lado do meu corpo estendido no chão, aguardava para ser enterrado.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

O esqueleto exposto

Estou farta! Cansei das intriguinhas mal resolvidas e das necessidades que cada um tem de se achar superior. Esgotou-me as discussões desnecessárias e as angústias mal resolvidas. Meu interior não tolera mais o transbordamento irracional e passional alheio erroneamente em minha direção. Basta, eu grito com todas as letras. Nestas horas, gostaria de cuspir as doloridas verdades que eu me fecho e não falo para não magoar. A língua ferina, muito bem controlada está cheia de marcas dos meus dentes, que afiados e certeiros, me impedem de causar estragos. Queria dar um tapa no rosto de cada um que decide descontar os medos e frustrações, adquiridos com os passos errados na vida, nos outros. Na boa, meu querido, se enfrenta no espelho antes de erguer o dedo na cara de alguém.

Estes tipinhos que sentem-se ameaçados e abastecidos pelo medo pisam em cima e tratam com enorme desprezo. Não importa o quanto você queira aniquilar aquela ameaça, meu bem, uma vez instalada, o medo permanecerá, caso não enfrente dentro de si. Angustia-me também, o “bom-mocismo”. Ó, os bons camaradas regidos por um bom coração fraterno. Que meigo, meninos e meninas adoráveis na sua infantilidade carregada de sonhos imaturos. O bom-mocismo, meus caros não é nada menos do que a ingênua ignorância do “preciso ser uma boa menina”, não posso dizer palavrões, preciso ser meiga, cordial, demonstrar que eu aceito as situações, ser praticamente uma princesinha bibelô Disney. E os bons-rapazes serão aqueles que em seu mundo de boas intenções, buscam aparecer no cavalo branco e proteger a boa menina deste mundo cruel.

Esta palhaçada toda é lastimável. A boa-menina perde-se em pânicos e medos de viver naturalmente e o bom-menino torna-se um exemplo digno do homem patriarcal e não aceita nenhuma mulher que ele considere igual ou superior a ele, em inteligência, emprego, maturidade, em qualquer argumento que ele valorize e gere um conflito. Afinal, ele é o apoio, a sustentação, o que diabos ele seria se não for isto para a mulher dele?

O bom-mocismo como qualquer outra boa intenção das frágeis figuras humanas é só mais uma representação das nossas fraquezas e incapacidade de aceitar a nossa verdadeira face. Ficamos com tanto medo da caveira interior que jogamos acima da pele as mais espessas camadas de base, algumas vezes fazemos até plásticas para desentortar o nariz da bruxa, mas é impossível esquecer que embaixo da pele a caveira ainda permanece.

A necessidade de ser importante para alguém e ter a certeza que uma pessoa precisa de você, é a regência do bom-rapaz. Este cara, na verdade é um coitado. Está tentando suprir o seu medo da solidão no heroísmo, quer sentir-se valorizado por alguém. Não aceita a idéia de ter ao lado uma mulher madura como ele, porque sente que não pode controlar isto. Nesta fuga, do medo da solidão, ele cavalga lindamente rumo aos mais solitários dos relacionamentos: o hierarquizado, no qual ele soberano fica acima e ela fragilmente aceita a segurança em que ele a acolhe. E é no topo, sem companhia nenhuma que ele se encontra novamente diante do pavor.

Aquela mulher que sente que não basta o acolhimento e a segurança, que quer ser igual a ele e desfrutar do mesmo patamar, dando mais companheirismo aos dois e mais liberdade de ser quem são verdadeiramente, é geralmente rejeitada. Os cavaleiros a admiram, mas não a querem. Alguns a chamam de mulher fálica e eu com todas as letras afirmo, que igualdade entre os sexos não tem nada a ver com inveja de um órgão sexual. Boa parte das mulheres está muito feliz com sua vagina e ADORA (em caps lock) os prazeres que ela oferece.

No fundo, sinceramente acho que “de boa intenção o inferno está cheio” e que se fossemos emocionalmente auto-suficientes não íamos ficar perdendo tempo com relacionamentos amorosos, demonstrações de solidariedade e boas ações fraternais. Eu seria mais eu e ponto.

sábado, 14 de agosto de 2010

A separação

O jantar acabou. A mãe se levanta para assistir TV e deixa tudo ali na mesa para os outros cuidarem. O marido paciente recolhe as migalhas espalhadas na toalha da mesa e do prato sujo que ela nunca coloca na pia. Os filhos observam calados e vagarosamente contribuem com a organização rotineira da casa. A louça acumulada e enfileirada espera a chegada da empregada que aparece só no dia seguinte.

A mãe se distrai com mais um seriado fútil no sofá. A mocinha do programa luta pelos seus ideais, reconhecimento profissional e uma família que a valorize muito. Ela dá altas risadas com as cenas mais clichês e se sente inteligente por saber o que vai acontecer no final do capitulo. Nada mais do que o óbvio.

Os filhos passam pela sala, chegam com a intenção de contar as novidades e ela pede espaço. Este é o episódio em que a mocinha vai dar o primeiro beijo no mocinho, ela aguardou a semana inteira, não está interessada em ouvir nada de ninguém agora.

Enquanto isto, o pai arruma o mamão, maçã, a faquinha e até um pãozinho para ele comer na manhã seguinte. Conversa um pouco com o menino, que conta suas descobertas adolescentes e ouve um pouco as dificuldades da garota. Ele conta piadas, dá dicas e compreende as mais obtusas situações. Seus filhos o admiram.

Antes de ir dormir ele pergunta à esposa o que ela deseja que ele compre na feira, no dia seguinte. Ela pede algumas frutas que ela gosta: caju e mexericas. Ele vai para cama e lê um pouco, gosta de biografias, aprende com exemplos vividos e se espelha neles. Todos grandes empresários, que conquistaram o sucesso com muita dedicação e ousadia. Ele fecha o livro bebe da água que deixa ao lado da cama e apaga a luz.

Além das frutas, a mãe gosta de chocolates, e o pai sempre compra alguns para agradá-la. Docemente o marido oferece a ela aquela novidade que ele encontrou no mercado. Ela rejeita e ainda pergunta: “Mas você não sabe que eu não gosto de crocante?”. O filho, ouvindo a reação, se interessa e pega o doce. Os dois então começam a contar piadinhas e rir da situação.

Mas um dia, após voltar do supermercado, sem os filhos em casa, já que os dois cresceram e foram fazer faculdade fora, ele se encontra cansado desta rotina. Quer cuidar dele mesmo, ter o dinheiro só para ele. O impulso que ficou guardado durante anos finalmente acorda e ele percebe que não há família, amor, mulher e filhos que possam compensar suas carências.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

O veneno pintado

Corri ao encontro de uma dose imediata do mais eficiente remédio. Arrepiava-me ao contemplar no escuro as minhas lembranças. Guardadas em um abismo longe, ao fundo, no obscuro que somente um medicamento que mata e cura, pode se alimentar da dor.

Relutante, agarrei o pincel que encontrei dentro daquela sala arredondada. Pressionei-o em minha mão e aos poucos eu observava as cores nubladas, em um tom azul escuro, espalhadas por toda uma ilusão branca e vazia. Busquei pela tinta na salinha e arremessei o pincel dentro da lata. Azul marinho, quase o preto de um buraco sem fim. Com as pintinhas borradas eu recheei de detalhes as nuvens daquela tela. Queria ver o choro do céu das fantasias, as lágrimas derramadas pela infantilidade da vaidade e da compreensão ardida dos sonhos perdidos.

Ao som de um jazz suave, larguei o pincel na mesinha ao lado e deixei-me fluir solitária. O piano arrepiando os meus pelos e os meus dedos passando pela pele, com um toque de amor. Os ombros balançando suavemente, seguindo o ritmo da sensação que transbordava em mim. Os pés mexiam-se delicadamente para frente e para trás, fluindo com toda a delicadeza do momento. Calmamente, dei a minha primeira volta e meu corpo continuava a balançar com a doçura da liberdade interior. Sorri como quem descobre uma novidade estupenda e dei mais uma volta. Expirei e meus olhos ainda se mantinham fechados, só queria aproveitar os sentidos daquele instante puro e belo. O agudo da cantoria me encantava e eu me sentia mais feminina e mulher. Respirei profundamente, lágrimas fluíram sem compreensão e continuei em sintonia com o invisível captando os mais sublimes desejos. Os segredos do meu eu estavam ali, naquele momento intangível, guardados com a ingenuidade de quem ama e não sabe o porquê. Ainda com o sorriso, apreciei o gosto das lágrimas que fugiam de mim em vão. Terminava com as minhas duas mãos na cintura, em um abraço intimo.

As últimas teclas do piano sinalizavam o fim da magia, agora, eu podia abrir os olhos. E aquela música que havia reinventado meu ouvido e, ao mesmo tempo, buscava em mim um criador, um senhor fantástico, capaz de gerar sentido àquelas notas, acabou derretida dentro de mim. Minha visão havia sido renovada e meus suspiros de amor fluíam aliviados pela nova imagem humanista que admirava o quadro.

Todo aquele peso de cores, o excesso de escuridão, de repente, havia se tornado natural. Parte de mim deixou fluir todas as emoções, purificar as paixões e atingir o mais sensível e único que cada pessoa pode alcançar. Meu quadro estava iluminado. Brilhava com o espanto de quem está vivo e se assusta com e experiência de ser humano.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

A encenação do ritual da paixão

O tecido fino e macio acariciava a minha mão e eu não queria mais deixar de sentir os prazeres do tato, a visão inebriada pelo brilho e o cheiro hipnotizante que seduzia me fazendo acreditar que nunca mais sairia dali. Aquele era o véu. Estava pendurado ali na minha frente, onde quer que eu fosse ele me perseguia como uma sombra, mas ao invés de ficar atrás, me acompanhando, era eu que o seguia.

Diante das delicias das ilusões, me recolhi no fantástico, no perfeito mundo real dos sonhadores. Havia espaço para somente um ali, o iludido. Eu. Os sonhos acompanhados nunca fizeram parte deste mundo com histórias encantadas. Quem poderia fantasiar os deleites da felicidade em conjunto? Nem os amantes mais apaixonados com uma conexão mental profunda poderiam se aventurar nas mesmas obras da imaginação. Esta invocação de sentimentos e imagens é individualmente prazerosa, nela eu me despejei e naveguei por projeções abstratas que, ás vezes, chegavam ao absurdo. O irreal e eu nos fundimos na fuga do meu universo.

O que alimentava a minha criatividade imaginativa era nada menos que o encantamento com a semelhança, ou melhor, com algumas coincidências infelizes que vieram a calhar em um momento de fragilidade sendo, ludicamente, transformada em catarse.

Sentia-me inserida em um rito. A passagem de uma vida sozinha para uma vida compartilhada, a introdução de um companheiro em momentos especiais. Era fascinante vivenciar esta nova etapa, estava embriagada com os meus próprios sentidos e apegada aos meus sentimentos. Tudo parecia uma realidade superior ao normal. Eu estava em um estado alterado de consciência acreditando na representação arquetípica do amor.

Buscando atender a todas as minhas vontades amorosas eu criei o pensamento mágico que explicava a minha saga heróica. A minha trajetória ao nascer, vivenciar e deixar o sentimento ir embora. Retornei ao meu estado natural por um motivo: eu não era a única que havia criado um mito.

Ele buscava sentidos para a própria existência por meio do apego. A carência e o medo o impediam de iniciar a mais dolorida das jornadas internas. Ele havia inventado uma relação, algo para escapar dos conflitos, mas a relação acabou por inventá-lo. Completamente absorto em um estado onírico, os instintos o dominam e ele afasta um dos motivos de contemplação da realidade que ainda existia.

Éramos dois frutos do acaso. Cheio de concessões e impedindo vontades próprias, se resumiram em duas pessoas sozinhas acompanhadas.